Ainda outro dia, estava a conversar com uma amiga acerca daquilo que significava a Páscoa. Ao contrário da visita pascal, do folar obrigatório, e das mesas fartas, com ricos cabritos e leitões assados, as nossas tradições insulares foram sempre muito mais “light”.
É verdade que havia a missa de Páscoa. É verdade que havia uma versão melhorada do jantar. É também verdade que as amêndoas lá apareciam no fim da refeição. Daquelas grandes e gordas e coloridas, cheias de açúcar, compradas a retalho no Zeferino. Mmmmm, que bem sabiam aquelas amêndoas da avó Maria.
Vim para casa com uma certa nostalgia daquilo que me lembrava ser a Páscoa ideal, sem as prateleiras a abarrotarem de ovos de chocolate de todos os tamanhos e feitios e de dezenas de pacotes de amêndoas, de dezenas de marcas diferentes. Fiquei triste!
Hoje, lembrei-me que estava a terminar a época pascal e que quarenta dias tinham passado num ápice. Quando era uma jovenzinha, passar esse período era um pesadelo, levava uma eternidade. Recordei as terríveis sextas-feiras, passadas com a nossa catequista, a fazer a via sacra na igreja e a rezar longos terços, que se ofereciam a todos os santos e a mais quantas pessoas já mortas e enterradas e que nem sequer tínhamos conhecido. Lembrei-me de chegar a casa, a pensar naquele resto de carne assada que me apetecia comer, apenas para constatar que tinha de engolir aquela sopa de peixe que eu detestava e que qualquer adolescente que se prezasse também odiaria. Lembrei-me de não poder brincar aos bailinhos de Carnaval com os meus irmãos e vizinhos (éramos mesmos tolinhos) ou de poder ouvir música na rádio porque era pecado e Deus castigava! Lembrei-me de ter de ir com a tal catequista (Deus a tenha) à paróquia, em grupo, confessar os nossos pecados, senão Deus castigava! Lembrei-me de que tinha de abdicar de coisas que eu adorava porque a catequista achava que sim (Lá se passavam uns quantos episódios da Tieta que eu não podia ver). E tinha de jejuar na quarta-feira de cinzas, ou então Deus castigava!
Eram tantas as regras e tantas as proibições que dei comigo a pensar que, afinal, gosto mais da Páscoa agora do que antigamente, apesar de ser mais comercial e apesar da avó Maria também ter evoluído porque agora só oferece amêndoas de chocolate!
Mas, pelo sim ou pelo não, não vá o diabo tecê-las ou Deus castigar-me, continuo a comer peixe às sextas, durante a quaresma e na quinta-feira santa, por isso, decidi fazer hoje a tal sopa de peixe que eu aprendi a adorar!
Para 4 pessoas
Ingredientes:
1 cebola média
2 dentes de alho
1 tomate maduro pelado (eu usei meia lata pequena de tomate aos pedaços)
Polpa de tomate q.b.
Coentros
1 peixe inteiro para cozer à escolha (usei red fish médio)
Azeite q.b.
2 punhados de arroz ou 2 batatas médias (usei o arroz)
1 litro de água (vão verificando se é preciso mais um pouco)
Sal q.b.
Preparação:
Picar a cebola e o alho. Refogar num pouco de azeite. Assim que estiver douradinho, juntar o tomate e a polpa e deixar apurar. Juntar os coentros e também deixar tomar o gostinho. Juntar a água (ponho, inicialmente, só metade), um pouco de sal e o peixe. Deixar cozer o peixe. Assim que estiver cozido, retirá-lo, tirar as espinhas e a pele e desfiá-lo para dentro do preparado. Juntar o resto da água e rectificar o sal. Assim que levantar fervura, juntar o arroz e deixar cozer, tendo cuidado para não deixar cozer demais, pois o calor acaba de abrir o arroz al dent.
Uma receita simples e saborosa! Boa Páscoa, amiguinhas!
Rosa
Rosa